Mito ou pan-materialismo

São notáveis as diferenças entre o pensamento antigo e o moderno. Depois das pesquisas científicas que, a partir do sec XVII, alteraram completamente as maneiras de encarar a realidade, pensadores europeus se interessaram em pesquisar quais seriam essas diferenças. GEORGES GUSDORF, LÉVY-BRUHL, ESNEST CASSIRER, MAURICE LEEHARDT, entre muitos outros, passaram a nos fornecer informações importantes sobre tais diferenças.

Dessa forma, eles constataram que os antigos eram possuidores de uma visão holística da realidade, na qual as individualidades não possuíam nenhum significado. Além disso, o sagrado é que assumia a responsabilidade por tudo o que acontecia, numa convivência muito íntima com todas as pessoas, vistas apenas coletivamente. Outro aspecto importante do mito é a oportunidade para a celebração das festas, que representavam o momento da libertação da vida rotineira, ocasião para que outros estímulos os motivassem.

Igualmente, os antigos não possuíam a noção do espaço conforme temos hoje, em seu tamanho, sendo considerado apenas restrito ao meio circulante limitado às pessoas em seu ambiente de convivência. O mesmo ocorria com a noção de tempo, apenas considerado em seus instantes sucessivos, no qual o passado se encontra consolidado nos totens e repetições das cerimônias litúrgicas. Os antigos desconhecem a noção de alma separada do corpo, levando-os a cultivar com esmero o culto dos mortos.

Os pesquisadores observaram também que a noção do eu como temos hoje é bastante recente em nossa cultura, pois os antigos a consideravam apenas como uma peça inserida na coletividade, no suceder das gerações que se sucedem, segundo as leis naturais que não se alteram. Igualmente, a noção de pessoa se torna muito moderna, os antigos a considerando compatível com as noções restritas de direito, que não existiam.

A ausência de reflexão nos antigos o impediam de ver a morte como uma interrupção da vida, ao considerarem a realidade frágil de nosso corpo em sua consistência. Assim, durante o sono, perdemos nossa individualidade, substituindo-a por sonhos e vivências aleatórias. Dessa forma, a morte não faz-nos perder nada, sendo apenas uma transformação, uma passagem para outra dimensão em nossa vivência. Se não há característica nítida de personalidade, a morte, por isso, não pode ser considerada como uma ruptura.